lunes, febrero 27, 2006

O lixo

(Note: This is my first, and likely, last, story in Portuguese)

Na verdade, não me importa que me tivessem apanhado. Tudo valeu a pena, pensar que eu posso ter uma partezinha dela, do seu lixo. Ela tocou, acariciou, sujou-o. Com isso me contento. Essa clemência divina me bastará os fins dos meus dias
Não sempre foi assim. Quando era pequeno, na escola, os meus professores diziam que eu ia ser alguém, que ia lograr grandes metas na minha vida, que tenia talento para a informática, as línguas... Mas tudo isso ficou no passado, em outro país, em outra vida, com outro eu. Agora só tenho uma ilusão, ela.
A vi pela primeira vez fumando na rua Hollywood Boulevard. Tinha um ar de estrela, mas sem importância. Ela tinha segurança, não precisava de ninguém, muito menos dum pobre diabo como eu. Eu limpava a estrada frente a ela. Não me via por causa do uniforme que eu vestia, de miserável trabalhador, estrangeiro, mudo, moreno. Ela brilhava, o cabelo louro, os olhos azuis, os lábios um vermelho perfeito. Aprendi mais tarde que ela usava a cor “Cherry Pie” para pintar-se, muito mais tarde, quando podia revisar-lhe o seu lixo com calma, gostando de cada folha de caderno rasgada, cada envelope aberto pelas suas mãos... mas nesse momento ainda não me imaginava como chegaria a conhecê-la, ao fundo da sua alma, por meio dos seus objetos mais pessoais, queridos, jogados fora.
Ela nunca notou. Jamais reparou em mim. Nesse dia, nem em nenhum outro dia. Sempre saía do estudo à mesma hora, nas mini-saias que somente ela sabe vestir, com as pernas longas, longas e brancas branquinhas, as unhas dos pés vermelhas como o sangue fresco. Só eu a espiava, pequeninha, bonita, sozinha as noites, chegando tarde, muito tarde em um táxi, meio bêbeda, cansada. Só queria que alguém a quisesse, que cuidasse dela. Eu queria. Queria, mas agora não posso.
Senti um prazer quase impossível de descrever. Um prazer secreto, quente, líquido. Um prazer prohibido. Fiquei como idiota a primeira vez que a segui para a sua casa. Não pensei, simplesmente quando entrou no táxi, esquecei-me de tudo, de meu trabalho, da minha mulher grávida em casa. Eu a segui, como maluco, como um ser incapaz de forçar contra a vontade divina. Ela era divina. Não podia resistir. Peguei o táxi seguinte sem pensar em nada. Pedi-lhe ao chofer que me ajudasse, que ficasse perto do carro diante. O taxista não perguntou nada. Só dirigio. Não diz palavra nenhuma depois. Silencio. Ânsia. Temor.
Chegou à sua casa, entrou com as suas chaves, que mais tarde nesse mesmo dia, jogaria no lixo... um erro? Respirava normalmente. O meu coração não parou, mas senti que algo em mim mudou. Toquei o metal frio sem tiritar. Via pela janela dela, meio aberta do segundo andar. Removi a tampa do lixo, meti a mão, suave, lento... encontrei-me com um par de calças velhas e achei que ia morrer no momento da emoção. Cavei um pouco mais e encontrei papéis, papéis rasgados, documentos. O seu nome real não é ***, é Margaret Smith! Não sabia, mas isso não lhe restou nada de bonita, só fez que a amasse mais ainda. Encontrei entre os papéis umas fotos rasgadas do seu “namorado” na televisão. Nunca pensei que a merecesse, certo. Encontrei também, pacotes de comida pré-cozinhada, parece-me que é vegetariana, coisa boa para manter a sua figura tão perfeita. Outros dias deixava restos de jantares grandiosos, vinhos caros, cigarros. Mas sempre que eu a via estava sozinha, parecia ter saudades de alguma coisa, mas eu não lograva saber o que lhe faltasse. Eu pegava os cigarros, os mesmos que ela tinha nas suas mãos, com a sua saliva da sua boquinha linda e os chupava como se fossem de açúcar, como se me dava beijos só para mim, na noite escura, como se me amasse.
Não ia o trabalho, não chegava a casa até muito tarde quando todo mundo estivesse dormindo, chegava com partezinhas dela como si pouco a pouco se fazia minha, desde a cor da pintura das unhas, até as dores de cabeça que iam sendo mais e mais freqüentes, pelo visto do seu consumo de compridos. Não queria fazer nenhum mau a ninguém. Não queria, não queria, mas as vezes essas coisas não se podem evitar. Já não me importa que me tivessem apanhado. Tudo valeu a pena, todo o sangue derramado. Os segredos divinos, só para mim.